Consórcio imobiliário cresce no Brasil, mas especialista alerta: modalidade exige estratégia

O consórcio imobiliário vem ganhando força no Brasil como alternativa para quem deseja comprar imóvel, construir patrimônio, investir em ativos reais ou planejar uma aquisição futura sem depender exclusivamente do financiamento tradicional.

Dados da ABAC (Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios) mostram que o sistema atingiu 13,03 milhões de participantes ativos em maio de 2026, marca inédita em mais de seis décadas, com alta de 11,1% em relação ao mesmo mês do ano anterior. No acumulado de janeiro a maio, foram 2,36 milhões de cotas vendidas, movimentando R$ 232,94 bilhões em créditos comercializados.

O destaque está no segmento de imóveis. Segundo a ABAC, o consórcio de imóveis somou 706,43 mil adesões nos cinco primeiros meses de 2026, crescimento de 43,7% em relação ao mesmo período de 2025. Os créditos comercializados no segmento chegaram a R$ 137,93 bilhões, alta de 40,3%.

Para Fill Borges, cofundador da Legado Capital e especialista em estratégia patrimonial, o crescimento confirma uma mudança de comportamento do consumidor brasileiro: mais pessoas estão buscando formas de realizar a compra planejada de imóvel, mas ainda existe uma diferença importante entre comprar uma carta de crédito e usar o consórcio como parte de uma estratégia patrimonial. “O consórcio imobiliário pode ser uma ferramenta muito eficiente quando existe planejamento. O erro é tratar a carta de crédito como uma promessa de contemplação rápida ou como uma decisão baseada apenas no valor da parcela. Comprar imóvel via consórcio exige objetivo, prazo, análise de fluxo de caixa, estratégia de lance e clareza sobre o papel daquele imóvel dentro do patrimônio”, orienta Fill.

Segundo o Banco Central, o consórcio é uma reunião de pessoas físicas ou jurídicas em grupo, com prazo de duração e número de cotas previamente determinados, promovida por uma administradora de consórcio, com a finalidade de permitir a aquisição de bens ou serviços por meio de autofinanciamento.

Comprar imóvel via consórcio: oportunidade ou armadilha?

Na avaliação de Borges, o crescimento do mercado não elimina a necessidade de cautela. O consórcio de imóveis pode fazer sentido para quem busca planejamento de médio e longo prazo, diversificação patrimonial, imóvel para renda, aquisição futura ou construção de patrimônio imobiliário. Porém, a modalidade pode se tornar um problema quando a decisão é tomada sem estratégia.

“O consórcio não deve começar pela pergunta ‘quanto cabe no meu bolso por mês?’. Essa pergunta é importante, mas não é suficiente. Antes disso, a pessoa precisa entender se quer comprar para morar, investir, gerar renda passiva, diversificar patrimônio, proteger capital ou construir liberdade patrimonial no longo prazo”, explica o especialista.

Um dos principais erros, segundo ele, é olhar somente para a parcela. Embora o consórcio não tenha juros como um financiamento tradicional, existem custos como taxa de administração, fundo de reserva e regras contratuais que precisam ser avaliadas. No Panorama do Sistema de Consórcios, o Banco Central aponta que a taxa média de administração dos grupos constituídos em 2024 foi de 18,35%, enquanto os grupos de imóveis registraram taxa média de 20,84% e prazo médio de 216,8 meses.

“Quando a pessoa compara apenas parcela, ela deixa de enxergar o custo total, o prazo, a correção da carta, a necessidade de lance e os custos da aquisição do imóvel, como documentação, ITBI, registro, possíveis reformas e mobília. O consórcio pode ser bom, mas ele precisa caber dentro de uma estratégia maior”, afirma Borges.

Erros comuns ao comprar imóvel via consórcio

Entre os erros mais frequentes observados no mercado, o especialista destaca:

Comprar a carta de crédito sem objetivo definido
Muitas pessoas entram no consórcio sem saber se o imóvel será usado para moradia, investimento, aluguel, short stay, valorização ou proteção patrimonial. Cada objetivo exige um tipo diferente de análise.

Olhar apenas para a parcela

A parcela pode parecer acessível, mas a decisão precisa considerar prazo, taxa de administração, reajustes, fundo de reserva, capacidade de pagamento e custo total da operação.

Contar com contemplação rápida sem estratégia de lance

A contemplação pode ocorrer por sorteio ou lance. Por isso, quem precisa do imóvel em uma data específica deve avaliar se o consórcio é realmente a ferramenta adequada.

Não planejar o lance
O lance pode acelerar a contemplação, mas também pode descapitalizar o cliente. O ideal é entender o percentual médio do grupo, o impacto no caixa e se o lance está alinhado ao objetivo patrimonial.

Comprar uma carta menor que o valor real do imóvel desejado
Além do preço do imóvel, é preciso considerar documentação, impostos, custos cartorários, eventual reforma, mobília e adequação do bem ao objetivo.

Ignorar a administradora e as regras do grupo

Reputação, histórico, taxa de administração, regras de lance, prazo do grupo, quantidade de contemplações e segurança da administradora precisam ser analisados antes da adesão.

Não saber o que fazer depois da contemplação

A carta de crédito é apenas um meio. Depois da contemplação, o cliente ainda precisa escolher o imóvel certo, negociar bem, avaliar documentação, entender potencial de renda e encaixar o ativo no planejamento patrimonial.

Dicas práticas para quem quer comprar imóvel via consórcio

Para quem deseja realizar a compra de imóvel via consórcio, a principal recomendação é tratar a modalidade como uma decisão de planejamento, e não apenas como uma alternativa de parcela menor. Segundo Fill Borges, o consórcio imobiliário pode ser uma ferramenta eficiente para aquisição planejada, diversificação patrimonial e construção de patrimônio familiar, desde que seja usado com método.

Comece pelo objetivo, não pela carta

Antes de escolher a cota, defina o objetivo: moradia, renda, valorização, diversificação patrimonial ou construção de patrimônio familiar.

“Uma pessoa que quer comprar para morar tem uma lógica. Quem quer comprar para gerar aluguel tem outra. E quem busca construir patrimônio imobiliário de longo prazo precisa olhar para localização, liquidez, potencial de valorização e capacidade de renda do ativo”, explica Borges

Entenda seu prazo real

Se a pessoa precisa do imóvel imediatamente, talvez o consórcio não seja a melhor ferramenta. Se ela pode planejar a aquisição, o consórcio pode fazer mais sentido. “O grande erro é entrar no consórcio esperando uma contemplação imediata. A contemplação pode acontecer por sorteio ou lance, mas não deve ser tratada como garantia de prazo. Por isso, o primeiro passo é alinhar expectativa e realidade”, afirma.

Analise sua capacidade de pagamento com segurança

A parcela precisa caber no fluxo de caixa sem comprometer reserva, liquidez e compromissos essenciais. Para Borges, esse ponto é decisivo. “Não basta a parcela caber hoje. Ela precisa caber dentro da vida financeira do cliente ao longo da estratégia. Patrimônio se constrói com constância, não com aperto financeiro.”

Avalie o custo total da operação

Consórcio não tem juros como um financiamento tradicional, mas possui taxa de administração e outros custos previstos em contrato. Segundo o Panorama do Banco Central, a taxa média de administração dos grupos novos em 2024 foi de 18,35% no sistema geral e, no segmento de imóveis, a taxa média dos grupos novos foi de 20,84%.

Além disso, é preciso considerar fundo de reserva, seguro, correção da carta de crédito e custos ligados à aquisição do imóvel, como ITBI, escritura, registro, documentação, eventuais reformas e mobília.

“Muita gente compara apenas a parcela, mas esquece de olhar o custo total da operação. Comprar imóvel via consórcio exige visão completa, porque a carta de crédito é só uma parte da jornada”, destaca o especialista.

Planeje o lance com antecedência

Quem deseja acelerar a contemplação precisa estudar os tipos de lance, a média histórica do grupo e o impacto do lance no próprio caixa.

“O lance não deve ser emocional. Ele precisa fazer parte da estratégia. Antes de ofertar, é preciso entender de onde virá o recurso, qual será o impacto no caixa e se aquela antecipação faz sentido para o objetivo patrimonial do cliente”, alerta Borges.

Pense no imóvel depois da contemplação

O consórcio entrega a carta, mas a estratégia não termina aí. É preciso saber que imóvel comprar, onde comprar, por quanto comprar e como esse imóvel vai contribuir para o patrimônio.

O imóvel pode ser usado para moradia, renda passiva, valorização, locação tradicional, short stay ou diversificação patrimonial. Cada caminho exige análise de mercado, liquidez, demanda, custos operacionais e potencial de retorno.

“O consórcio entrega a carta. Mas quem constrói patrimônio é a estratégia por trás do uso da carta”, resume o cofundador.

Não compre por impulso

O consórcio é uma ferramenta de médio e longo prazo. Ele deve ser comprado com método, não por pressão comercial. Na avaliação de Borges, a decisão deve ser racional, planejada e alinhada ao objetivo financeiro do cliente. “Consórcio não é aposta. Consórcio é planejamento. Quando a pessoa compra por impulso, ela corre o risco de entrar em uma estrutura que não conversa com sua realidade.”

Tenha acompanhamento especializado

A principal diferença não está apenas em ter uma carta de crédito. Está em saber usar essa carta dentro de uma estratégia patrimonial.

O acompanhamento especializado ajuda o cliente a entender se o consórcio realmente faz sentido, qual carta escolher, como planejar o lance, qual administradora avaliar e como transformar a contemplação em aquisição eficiente de patrimônio imobiliário.

“Na Legado Capital, nós não olhamos o consórcio como produto final. Ele é uma ferramenta. O objetivo é ajudar o cliente a transformar renda atual em patrimônio futuro, com clareza, método e segurança. Porque patrimônio não se constrói por sorte. Patrimônio se constrói com estratégia”, conclui Borges.

Foto: Divulgação.

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